O Natalino foi das passagens mais efémeras da minha vida. Talvez mesmo a mais efémera. Porque me lembro dele? Porque foi por esta altura que ele apareceu. Vinha gelado. Acolhi-o com paninhos quentes e goles de aguardente velha para o reanimar. E partilhei com ele a minha cama, que o espírito da época assim mandava. Quando lhe perguntei de onde vinha, fugiu à resposta e depois não tive tempo de saber para onde ia.Mas era uma figura possante, de presença cheia, caloroso nos gestos e meigo como um cachorro.Na intimidade pedia para ser a Rena, porque estava farto de ter protagonismo e adorava que lhe pusessem os cornos. E eu, habituada às mais variadas fantasias, não estranhava o pedido e fazia-lhe a vontade. Vestida de vermelho e com um cachecol felpudo a rodear-me os ombros de branco, pegava nas rédeas e fazia ho.ho.ho… e o Natalino sorria, fechando os olhos. E em sussurro ia falando em consoadas embora eu dissesse "consolada".
Eram um gozo de excepção as nossas cenas festivas. Gostava de deslizar com ele pela neve dos nossos sonhos da estação fria, agarrar-me ao tronco e enfeitar-me com as bolas. Era uma árvore de Natal perfeita a que fazíamos juntos. E se eu gostava dos presentes! Era vê-lo a despejar-me o saco no colo e eu, deslumbrada, a pedir mais.
Depois não sei se se cansou ou se era próprio da sua natureza escapar-se assim como tinha chegado. Mas foi. Exactamente no dia 31 de Dezembro, murmurando que o amor é bom quando é só por uma estação.